embriaguez, sobriedade e post malone

um mundo sedento, um momento de embriaguez 🍺

“f*** me up, it’s only a party”

1.

dia 03 de setembro do ano passado, austin richard post, o post malone, fez o seu show no rock in rio e eu estava no tuíter. a movimentação das trends me despertou curiosidade e fui atrás de uma transmissão pirata pra ver. não esperava que eu fosse gostar tanto. apesar de já ter ouvido sunflower na trilha do homem-aranha — que já assistimos quatrocentas e setenta duas mil vezes aqui em casa — julguei que eu fosse dizer ser muito música de jovem pra mim.

mas, como desde sempre aprendi que irreverência era um adjetivo positivo, o “pôusty” ao vivo acabou ganhando minha simpatia, porque naquela apresentação em particular ele parecia estar se divertindo muito e ver as pessoas se divertindo de maneira legal e autodestrutiva em níveis aceitáveis é quase sempre algo muito divertido também.

2.

da apresentação, fui atrás de uma lista no spotify e fiquei por algumas semanas ouvindo a setlist do show. confesso que nem cogitei ir atrás dos álbuns para ouvi-los por inteiro porque post malone é contemporâneo e eu só ouço música contemporânea de acordo com os lançamentos por pura conveniência, mesmo — se eu tiver de agregar músicas antigas às minhas playlists, que sejam, pelo menos, de três ou quatro décadas anteriores.

além disso, eu ouço bandas e leio livros da mesma forma com que conheço pessoas.

o último disco do post malone saiu: austin; e eu fui atrás de ouvir. a vibe é parecida com as demais músicas do setlist do rock in rio que eu já vinha ouvindo (exceto por estar mais baseado em guitarra e violão). os temas também seguem sendo os mesmos.

3.

repetir-se pode ser um movimento retórico, criando humor (destruir legal) ou fazendo parecer como se a mensagem transmitida estivesse tentando se fazer ouvida a qualquer custo. algo como um berro de “estou falando isso aqui pela milésima vez porque é muito importante que você perceba o que isso aqui quer dizer”.

4.

o post malone me faz pensar muito. e nem é a sua figura, sua imagem, sua curiosa estética ou as suas músicas monotemáticas. mas todo o conjunto muito coeso e ligeiramente caótico dessa obra.

Feeling Cute Tonight Show GIF by The Tonight Show Starring Jimmy Fallon

5.

o mote principal por trás da obra de post malone é a ideia de viver o máximo possível em uma realidade paralela em que aquilo que é imperfeito completa o eu lírico das músicas — o próprio artista, no caso.

o caminho para esse movimento de autopreenchimento é a embriaguez, que começa, é claro, pela intoxicação através de substâncias, mas também tem a ver com o descolamento da realidade gerado pelo dinheiro, fama, validação social e relacionamentos nocivos.

aqui, embriaguez é, no fim das contas, um conceito que vai pra além daquilo que as paredes da sala meio lúgubre cheirando a café fresco que recebe as reuniões do aa da nossa cidade ouvem durante as reuniões.

trabalho, dinheiro, comida, pessoas, religião, ideologia, paranoias, etc. etc.

tudo que é imperfeito e tenta, de alguma forma, nos preencher, embriaga.

6.

não creio que as músicas do post malone sejam uma porta (para drogas mais pesadas), mas, definitivamente, acho que são janelas (para observar outras forma de viver).

nas canções, existe um vislumbre muito seguro e honesto sobre o funcionamento dessa celebração das decisões “erradas” como escape de tudo o que é gratuito e feito — tudo o que é normal.

post malone faz música. música é texto. e todo texto é feito por e para uma sociedade. ao observá-la, podemos pensar primeiramente em gente que só quer se divertir. mas, divertir-se talvez seja fugir de sofrimentos paralisantes como trabalhar exaustiva e exasperantemente como sísifo pra tão somente permanecer vivo e morrer pobre. relacionar-se com ene pessoas ao longo da vida e, ainda assim, encontrar-se sozinho, porque você também já disse “eu entendo” quando, na verdade, não tinha entendido absolutamente nada do que o outro disse.

inúmeras facetas de nossa realidade, quando expostas a um pensamento mais dedicado, são capazes de nos levar a uma tristeza extenuante e inevitável. por isso, existe essa linha tênue que existe entre divertir-se pra chegar mais perto de morrer na tentativa de escapar de vez do sofrimento e, por outro lado, divertir-se o suficiente para ganhar fôlego e voltar pro ringue pra viver mais um dia, mais um mês, mais um ano etc. etc.

boa sorte.

por isso “a vida sem a arte seria um erro”. não tanto que a arte seja grande coisa ou tenha o poder de nos redimir e salvar enquanto humanidade. mas a vida sem a arte não nos daria a oportunidade de esquecer o que é terrível por qualquer tempo que seja, ou ainda abordar o “terrível” em tons mais agradáveis.

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